domingo, 20 de novembro de 2011

Nenhuma igreja deveria isolar-se da carência humana

ocupe wall st

Giles Fraser, no Guardian [via Folha.com]

“Este é o lugar onde Jesus Cristo nasceu”, cochicha um guia numa voz de barítono afetada e muito treinada. Sinos tocam e o incenso se espalha pela igreja. Milhares de pessoas fazem fila para curtir a experiência em um espírito de respeito e reverência. Ônibus vindos de hotéis elegantes de Jerusalém passam pela barreira israelense e descarregam seus passageiros a poucos metros da entrada desta igreja, o mais santo dos santuários cristãos.
      Os cruzados rebaixaram a entrada, antes grandiosa, para impedir peregrinos de entrarem na igreja a cavalo. Nada tão profano quanto um cavalo, e seus inevitáveis dejetos, deveria chegar perto de um lugar tão sagrado. Nas palavras de Levítico 10:10, “a fim de que estejais sempre em condições de discernir o que é santo do que é profano, o puro do impuro”. Em outras palavras, a igreja precisa ser protegida do mundo.
Sentado do outro lado da praça da Manjedoura, eu me vejo cada vez mais revoltado com essa visão profundamente arraigada do que é sagrado. Belém é um lugar de tão profunda injustiça e depravação social.     
      A barreira de separação israelense separou a cidade inteira de suas fontes tradicionais de vitalidade social e econômica. Os agricultores não podem mais chegar a seus olivais. Familiares que vivem a poucos quilômetros de distância uns dos outros não podem mais se visitar. Uma pichação na enorme muralha de concreto oferece uma esperança tênue: “Nada dura para sempre”.
       Mas parece que, para muitos dos peregrinos que vão a Belém, essa realidade política complexa é algo a ser deixado do outro lado. Eles vêm para encontrar um espaço sagrado que é tão protegido contra a política quanto o sagrado é protegido do profano. Mas há uma ironia tremenda em tudo isso. Pois o nascimento de Jesus Cristo num estábulo fedorento, e sob a ameaça das forças de ocupação, representa a rejeição absoluta de precisamente essa visão do que é santo. Deus não seria mais resguardado em alguma condição de “outro” intocado. O sagrado não precisaria mais ser protegido do profano. É a razão pela qual Jesus faz tanta questão de confraternizar com as pessoas tradicionalmente mantidas fora do espaço sagrado: os mancos, os cegos, os pescadores, os leprosos, as mulheres que estavam menstruando.
      Na vida de Jesus, o sagrado é redefinido como sendo a justiça. Como os profetas que o precederam, Jesus se mostra indiferente, na melhor das hipóteses, ou, na pior, diretamente hostil às formas tradicionais de proteção contra o aviltamento ou a mácula: a lavagem, a exclusão do trabalho do sábado e assim por diante. A tarefa dos profissionais religiosos não é conservar Deus limpo, como se pode proteger um caderno novo contra dedos manchados de tinta. “Vim pra trazer boas novas aos pobres, liberdade aos cativos, visão aos cegos.”
      E é por isso que a relação entre o acampamento do Ocupe e a catedral de St. Paul é tão fundamental, teologicamente falando. Para quem tem uma visão tradicional do sagrado, o acampamento é uma ameaça, assim como o impuro é visto como ameaça ao que é puro. O acampamento é caótico e sujo, a política é desordeira e visceral. O cheiro de suor e urina paira no ar. Dentro da catedral, o coro canta a majestade e alteridade de Deus.
     O templo magnífico criado por Christopher Wren é o palco perfeito para a contemplação do universo ordenado e da beleza transcendental do sagrado tradicional. É um lugar de adoração cheia de dignidade, de serenidade religiosa. Desde essa perspectiva, o acampamento parecia uma invasão existencial, uma ameaça avassaladora ao sagrado. Mas é exatamente assim que o nascimento e o ministério de Jesus devem ter parecido. Foi por isso que ele teve uma relação tão incômoda com as autoridades religiosas de sua época.
O que é interessante, é claro, é que o sagrado como algo separado muitas vezes é um empreendimento caro. Tanto para os seculares quanto para os religiosos, o dinheiro é a melhor maneira de que dispomos para nos isolarmos da vulnerabilidade e do caos emocional de encarar a humanidade crua da carência e da raiva. Isso se aplica tanto ao apartamento de cobertura do milionário quanto ao aspecto de outro mundo do recinto de uma catedral.
      De fato, uma das razões pelas quais, ao longo de sua vida, a Igreja passou por períodos em que sentiu a necessidade de abrir mão de sua riqueza não é por enxergar o dinheiro como algo intrinsecamente mau, mas porque o dinheiro pode facilmente converter-se em uma maneira de nos protegermos da realidade, e assim (na imaginação cristã) nos protegermos de Deus. Não foi por algum puritanismo negador de vida que São Francisco chamou a igreja à pobreza. Pelo contrário, ele queria que ela absorvesse muito do que significa estar plena e completamente vivo.
      Assim, o movimento Ocupe foi um momento de oportunidade que Deus colocou à disposição da igreja. Não apenas o sagrado, como justiça, exige que a comunidade cristã jamais se distancie das realidades políticas e econômicas do tipo levantado pelo movimento Ocupe. Afinal, a justiça financeira é a questão moral número um da Bíblia. Além disso, o movimento oferece à igreja, mais uma vez, uma oportunidade de se reformar – algo que, como a revolução perpétua de Trotsky, é um processo contínuo e interminável –, para que a igreja recupere sua própria vulnerabilidade intrínseca diante do outro.
    É claro que essa perspectiva é assustadora. Mas, como o próprio São Paulo expressou com tanta clareza, nossa força se manifesta em nossa fraqueza. E é por isso que uma catedral que carrega seu nome jamais deveria usar a lei ou a polícia para proteger-se da suposta ameaça do protesto pacífico.
tradução: Clara Allain

foto: Reuters [via R7]

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