quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um novo conceito de igreja grande



Chip Sweney

Grande ou pequeno?

O uso mais comum do adjetivo “grande” já o explica de forma bastante óbvia. Grandes estacionamentos e edifícios, grandes templos e centros de atividades. Grandes coberturas da mídia, marketing e produção musical. Sistemas, estratégias e redes sociais. Compare nossa subcultura com o mundo. Grande significaria manter-se no ritmo.

Mas será que é assim mesmo? Bastaria você começar a medir as dimensões de seu impacto dessa maneira, e somente dessa maneira, para acabar provavelmente vazio — cheio de aprimoramentos, mas se perguntando por onde em sua vida de trabalho teriam escoado todos aqueles valores do reino. Você já deve ter passado por aqueles momentos de crise existencial em que questionou até que ponto ser grande é de fato algo assim tão importante. Assim como um paisagista que desenvolve um projeto que requer horas e horas de manutenção, você também acaba não tendo tempo para se sentar e apreciar toda a beleza resultante desse esforço. Até sabe por que está agindo daquela maneira, porém há momentos em que chega até a se esquecer.

Mas será que isso significa que a saída é sempre buscar ser pequeno? Talvez você veja a igreja por um prisma mais despojado, como na analogia do lago Walden, de Thoreau: um lugar para onde fugir da ostentação e reduzir sua ideologia a suas raízes mais simples, um lugar para se manter focado. Sem dúvida alguma, tudo o que se passa em pequena escala tem lá seus benefícios, mas o tamanho da escala não reduz, de forma alguma, a necessidade existente. É claro que os relacionamentos formados em um contexto menor são significativos, mas e o que dizer das multidões? Quantas vezes um grupo pequeno perde o encanto por ter deixado de olhar para além de suas confortáveis fronteiras? E, quando uma igreja pequena procura alcançar os de fora, até que ponto consegue ser eficaz sem os recursos de suas megairmãs?

É possível também que você esteja balançando, como um pêndulo, ora flertando com o poder puro e simples de um grande empreendimento, ora se deixando envolver em um caso de amor com a doce simplicidade de um pequeno projeto. Você não tem uma mentalidade consumista, mas apenas é alguém que está consumido pela missão. Você tem um trabalho a realizar e quer vê-lo concluído. Você realmente deseja saber o que funciona melhor.

E existe a possibilidade de que você talvez venha se concentrando no problema errado. Pense a respeito. O problema da igreja não é seu tamanho (ou então a quantidade de pessoas que frequentam os cultos); o problema da igreja é seu alcance. Quando você desconfia que a igreja tenha uma influência mínima ou mesmo inexistente, é isso que mexe com o seu coração. Não é mesmo? É com isso que você realmente se importa. É por isso que você deu o primeiro passo nessa jornada.

Vamos voltar para o ponto onde tudo começou. E começou com algo grandioso. O Deus do universo tocou sua vida e, por meio de você e de outros como você, anseia tocar as pessoas que estão sob seus cuidados — até mesmo comunidades inteiras. Você veio bem depois dos primeiros discípulos que agitaram o mundo (At 17.6) do primeiro século. Sim, ser grande é importante, mas não pelas razões que facilmente consomem quem faz parte de uma instituição ou organização que se preocupa em manter registros, contar cabeças ou construir prédios. (Qualquer que seja o tamanho de sua igreja, é muito fácil tropeçar em tudo isso a caminho do “verdadeiro” objetivo.)
Ser grande é importante porque Deus é maior que a Criação, maior que a igreja em todas as suas formas de manifestação, maior que o céu que ele criou. Deus é imenso.

E ser grande é importante porque a necessidade também é grande. As questões a ser tratadas — como a injustiça, a pobreza e a fome — são maiores do que a capacidade que uma só pessoa tem de tratar delas. Nossas cidades, países e continentes são maiores que a capacidade que uma só igreja tem de influenciá-los.

O drama

Portanto, temos aqui um drama de proporções épicas, e o debate em torno do “grande” vs. “pequeno” dificilmente importa. Eis a questão central: “De que maneira as igrejas — pois não há uma única igreja suficientemente grande para isso — podem causar um impacto do tamanho de Deus num mundo cujas necessidades são do tamanho de Deus?”. Ou, antes dessa questão, pergunte o seguinte: se sua igreja deixasse de existir amanhã, que impacto isso teria sobre as pessoas que vivem a um raio de 20 km de onde você mora? E o que dizer dos alunos do pré da escola fundamental que fica a 8 km de distância, os quais estão no programa de merenda gratuita porque o pai foi embora e a mãe mal consegue se sustentar ainda que trabalhe 50 a 60 horas por semana? O que sua igreja tem a oferecer a esse aluno? Você está fazendo a diferença? Sua igreja está fazendo a diferença? É possível fazer a diferença? E se fosse possível? E se alguém tentasse fazer e sobrevivesse para contar a história?
Isso mesmo! E se alguém tentasse?

Você não é a única pessoa com um grande sonho e sabe disso. Mas sabe também que outras pessoas estão começando a ter sucesso na busca de seus sonhos? Uma igreja, a Perimeter, lá da cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, uniu-se com mais de cem outras igrejas, em uma única cidade, exclusivamente para esse fim. Cada igreja deixou de lado seus programas individuais para servir a um grande Deus e atender a uma grande necessidade. E funcionou. Ou melhor, ainda funciona. E, se olharmos a partir de um ângulo mais amplo, eis um panorama do poder de fogo dessas igrejas unidas por um objetivo comum: em apenas um fim de semana de 2007, 6 mil voluntários de mais de 60 igrejas se uniram para trabalhar em 250 projetos de prestação de serviços dentro de um raio de 20 mil km em torno da Perimeter. Trinta cestas de boas-vindas foram entregues a refugiados, dezenas de casas foram reformadas, mil Bíblias foram distribuídas, 750 pacotes com presentes de incentivo foram distribuídos a professores. E não só isso. Voluntários prepararam 20 festas ao ar livre em condomínios de baixa renda e organizaram 65 visitas pela vizinhança nas quais foram arrecadados 11 mil quilos de alimento.

O drama está na impossibilidade da tarefa. As pessoas de nossa igreja, a Perimeter, reuniram pessoas de outras igrejas para tratar de uma necessidade “impossivelmente” grande. Os projetos de serviço à comunidade mencionados acima não aconteceram do nada. Desenvolveram-se a partir de relacionamentos entre as igrejas e a comunidade. E esses relacionamentos surgiram em resposta a grandes questões como pobreza, educação, família e justiça. Essas igrejas se recusaram a limitar sua definição do que significa ser grande a simples prédios, reuniões ou estacionamentos. Tinham em comum um amor por Deus e um anseio profundo de estender a mão ao mundo de maneiras significativas.

Não escrevemos nossa história de cima de um pedestal, mas, sim, do fundo do poço da necessidade. Nossa história não delineia coisas pequenas; ela propõe coisas grandes. E é um franco convite à história ainda maior que você mesmo escreverá.

Talvez, ao longo dos anos, seu sonho tenha ficado menor. Quem na realidade pode culpá-lo por isso? Quero dizer, se você sonha alto e seus sonhos não se concretizam, você fica com o coração partido. As pessoas desistem dos sonhos o tempo todo, e isso é compreensível. O problema é que, como seres criados por um Deus grandioso, fomos destinados a coisas grandiosas. Então, você pode desistir de seus sonhos, mas isso não lhe trará uma vida de satisfação. Infelizmente, se escolheu esse caminho, é porque se conformou e traiu seus próprios objetivos.

Mas será que você não está pronto para pensar grande outra vez? Não está pronto para lidar com aquelas perguntas antigas e incisivas postas à prova nesse drama? Digo isso porque essa é sua missão. A tarefa cristã abrange “os confins da terra”. Em outras palavras, você pode ter plena consciência de que é pequeno, assim como sua igreja, mas Deus lhe deu uma tarefa de alcance ilimitado. O tempo todo ele tinha algo grande em mente.


 Em Teologia Brasileira no Portal Vida Nova.

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