sábado, 3 de dezembro de 2011

Ateus negros americanos usam a internet para romper isolamento

por Emilly Brennan, do New York Times

Ronnelle Adams saiu do armário para sua mãe duas vezes, primeiro sobre sua homossexualidade, e em seguida, sobre o seu ateísmo. "Minha mãe é muito devota", disse Adams, 30 anos, morador de Washington, que publicou o livro infantil ateu "Dores e Rezar", mas que na escola havia pensado em se tornar um pastor batista.

"Ela começou a me contar sobre seus problemas com a homossexualidade, que eram, naturalmente, relacionados com a Bíblia", disse. "'Eu não me importo o que a Bíblia diz sobre isso', eu disse a ela, e ela perguntou por quê. 'Eu não acredito mais nessas coisas'. Houve um silêncio. Ela estava perturbada. Ela me disse que estava mais preocupada com isso do que com o fato de eu ser gay."

Isso foi em 2000 e Adams não encontrou outros ateus negros em Washington até 2009, quando encontrou um grupo no Facebook chamado Black Atheists, que imediatamente chamou a sua atenção. "Eu pensei, '100 ateus negros? Uau!'", disse.

Nos dois anos seguintes, o Black Atheists (Negros Ateus, em tradução literal) cresceu para 879 membros, vídeos no YouTube atraíram milhares de pessoas, blogs como o Godless and Black ganharam seguidores e centenas mais se juntaram a grupos do Facebook como Black Atheist Alliance (Aliança de ateus negros) (524 membros) para compartilhar suas lutas com a sua "exposição" sobre o seu ateísmo.


Mark Hatcher, do Black Atheist Alliance:
"É preciso tomar uma posição"
Sentindo-se isolados de amigos e de suas famílias religiosas, e excluídos do que significa ser afro-americano, esses indivíduos se voltam para esses sites para procurar conselhos e compreensão, com alguns deles chegando a marcar encontros. E tendo se beneficiado do incentivo online, organizações como a African Americans for Humanism (Afro-americanos para o humanismo) e a Center for Inquiry-Harlem têm estado presentes nos encontros de grupos, e outras como a Black Atheists of America (Ateus Negros da América) e a Black NonBelievers (Negros que não creem) foram fundadas.

Em geral, os afro-americanos são extremamente religiosos, mesmo dentro de um país conhecido por seu alto grau de fé, como os Estados Unidos. De acordo com a Pesquisa do Panorama Religioso dos EUA do Pew Forum, realizada em 2008, 88% dos afro-americanos acreditam em Deus com absoluta certeza, em comparação com 71% da população total, com mais da metade dos seguidores atuantes em serviços religiosos pelo menos uma vez por semana.

Enquanto alguns membros do clero negro lamentam a perda de paroquianos para mega-igrejas como a de Rick Warren, muitas vezes é dado como certo que os afro-americanos participem do serviço religioso. O Islã e outras religiões são representadas na comunidade negra, mas com o pressuposto de que os afro-americanos são religiosos vem a expectativa de que eles sejam cristãos.

"Esse é o ponto de partida, quando eles perguntam qual igreja você frequenta", disse Linda Chavers, 29, uma estudante graduada de Harvard. A questão vem à tona entre os jovens profissionais negros com seus colegas, casualmente, em um bate-papo entre as aulas e o namoro. "No começo, eles acham que é porque eu não encontrei uma religião, e dizem, 'Oh, eu sei de algumas igrejas interessantes', e eu não sei uma boa maneira de dizer que eu simplesmente não estou interessada ",

Mesmo entre aqueles afro-americanos que não têm qualquer tipo de filiação religiosa, mais de dois terços dizem que a religião desempenha um papel importante em suas vidas, de acordo com o Pew. E alguns afro-americanos não crentes frequentam a igreja apenas por tradição.

"Tenho alguns colegas e amigos que se identificam culturalmente como cristãos de uma forma similar aos judeus étnicos", disse Josef Sorett, professor de religião na Universidade de Columbia. "Eles até chegam a ir à igreja porque essa é a igreja da qual sua família faz parte, mas não necessariamente compartilham as crenças do cristianismo."

Dada a atração cultural em relação à religião, menos de meio por cento dos afro-americanos se identificam como ateus, em comparação com 1,6% da população total, de acordo com o Pew. Ateus negros, então, descobrem que eles são uma minoria dentro de uma minoria.

Em 2008, John Branch fez o seu primeiro vídeo no YouTube, Black Atheism. Com a câmera firme em seu rosto, Branch, agora com 27 anos, pergunta: "O que é um ateu? Um ateu é simplesmente alguém que carece de uma crença em Deus." Meio de brincadeira, ele continua: "Nós não estamos bebendo o sangue de ninguém. Nós não estamos adorando a Satanás." O vídeo já foi visto mais de 40 mil vezes.

"Eu acho que atraiu a atenção porque, na comunidade negra, não acreditar em Deus é visto como uma coisa para brancos", disse Branch, um estrategista de marketing que vive em Raleigh, Carolina do Norte. "Eu odeio esse termo 'agindo brancamente', mas ele é utilizado."

De acordo com o Pew, a grande maioria dos ateus e agnósticos são brancos, incluindo os autores Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens.

Buscando um intelectual que represente seu próprio público, alguns ateus negros têm reivindicado o astrofísico Neil de Grasse Tyson, interpretando os seus argumentos contra a proibição do ensino da evolução como um endosso do ateísmo. Mas Grasse Tyson não está disposto a ser associado com qualquer parte do movimento. Quando contatado por e-mail na semana passada, ele mencionou uma conversa que teve no Twitter em agosto em que disse a um seguidor: "Se eu sou um ateu, você pergunta? Os rótulos são maneiras mentalmente preguiçosas com os quais as pessoas afirmam que elas te conhecem sem saber quem você realmente é."

Jamila Bey, uma jornalista de 35 anos de idade, disse: "Ser negro e ateu, em muitos círculos, é não ser negro." Ela disse que a história que a nação conta dos afro-americanos é que a luta pelos direitos civis é uma luta cristã, de modo que os afro-americanos que rejeitam a religião rejeitam sua própria história. Isso é injusto para Bey, cuja mãe é católica romana e cujo pai é muçulmano, porque pessoas de diferentes religiões, e algumas com nenhuma, também fizeram parte do movimento. A igreja negra dominava, segundo ela, porque era a única instituição independente negra permitida pelas leis de Jim Crow, proporcionando espaços livres para que afro-americanos que, de outra maneira, poderiam ir presos por se reunir em espaços públicos.

Reconhecendo o papel das igrejas no movimento, Bey ainda tem alguns problemas quando essa história é recontada como o trabalho de Deus. "Essas pessoas estavam usando a igreja, utilizando de seus recursos, para atacar um problema e, literalmente, mudar a história. Mas a história que é contada é: 'Jesus nos libertou'", disse Bey. "Francamente, foi o ser humano que fez todo o trabalho."

Garrett Daniels escreveu na página do grupo Black Atheists, "Eu revelei para minha família que sou ateu". Ele acrescentou: "Eu não fui deserdado e aparentemente eles não me amam menos." Um membro respondeu: "Bom para você. Buscar a religião apenas para pertencer a um grupo irá deixá-lo louco. "

Os fóruns de discussão desses grupos no Facebook muitas vezes se tornam sessões de terapia, e como administrador do Black Atheist Alliance, Mark Hatcher se considera um conselheiro. "Meu conselho geralmente é que eles saibam que você entende a sua religião e no que acreditam, mas você tem que tomar uma posição", disse.

Essa estratégia tem funcionado para Hatcher, 30 anos, estudante de pós-graduação que iniciou um grupo secular de estudantes negros na Universidade de Howard. Para dois de seus amigos do Facebook, no entanto, isso não funcionou, e eles se mudaram para Washington, não para cortar os laços com suas famílias, mas para manter sua sanidade.

Agora que os grupos do Facebook conectaram os ateus negros, reuniões tiveram início em cidades como Atlanta, Houston e Nova York.

Em um sábado cinzento em outubro, 40 membros do African Americans for Humanism, incluindo Hatcher, Bey e Adams, reuniram-se em um restaurante em Washington para comemorar o primeiro aniversário das reuniões. Palestrantes discutiram planos para ampliar serviços como aulas particulares e iniciar uma turnê de palestras em faculdades historicamente negras.

"Alguém está em cima do muro, dizendo: 'Eu vou à igreja e todos os meus amigos e minha família estão lá, como posso sair dessa?'", Hatcher disse no palco. "Aí é onde nós entramos, como afro-americanos humanistas, e dizemos: 'Ei, olha, nós temos uma comunidade aqui'."

Após os discursos, Hatcher olhou para os participantes da palestra se misturando, rindo, abraçando uns aos outros. "Eu sinto como se estivesse sentado em uma reunião de família", disse.

Sentada ao lado Hatcher estava sua namorada, Ellice Whittington, uma engenheira química de 26 anos de idade que ele conheceu através de um grupo ateu negro no Facebook. Ele vivia em Washington e ela em Denver, por isso, seu relacionamento progrediu lentamente em longos emails. Mas Hatcher disse que se apaixonou imediatamente. "Nós nos unimos graças à música. Ela amava o Prince."

Quanto a ser não-religioso na comunidade negra, Whittington disse: "Definitivamente diminui suas chances amorosas."

Ela acrescentou: "Alguns homens tinham medo de me ouvir dizer que eu não acredito em Deus do mesmo jeito que eles. Eu já ouvi pessoas dizerem: 'Como você pode amar alguém se você não acredita em Deus?' "

Em seu blog Words of Wrath, (Palavras de Wrath), Wrath James White faz críticas sobre o cristianismo e o "acolhimento zeloso do Deus de nossos sequestradores, assassinos, senhores de escravos e opressores."

Apesar de seu ateísmo ser um tópico já desgastado para o debate com sua esposa e sua mãe (uma pastora), White, um escritor de 41 anos de idade que vive em Austin, Texas, evita discutir o tópico com o resto de sua família. Embora ele não vá participar dos cultos de Natal desse ano e não tenha participado já faz anos, sua família assume que ele apenas não tem "tanto interesse assim por religião." Dizer explicitamente que ele é ateu, disse ele, "iria quebrar o coração da minha avó ".

A pressão que ele sente para acalmar seu ateísmo está explicita em uma declaração provocativa que ele fez em seu blog: "Na maioria das comunidades afro-americanas, é mais aceitável ser um criminoso que vai à igreja no domingo, mesmo que ele venda drogas para crianças toda a semana, do que ser um ateu que ... contribui para a sociedade e sustenta sua família."

Por telefone, White disse que se sente respeitado pela sua educação e sucesso, mas por ele não poder falar livremente sobre seu ateísmo, se sente um tanto quanto excluído . Quando ele morava em Los Angeles, ele presenciou membros de gangues entrarem na igreja onde foram recebidos com gritos de "Amém" (eles pecaram, mas tinham sido resgatados), juntamente com todos os outros.

"Eles estavam livres para contar a sua história", disse White, enquanto ele tem que manter a sua história de abandonar a religião para si mesmo - e para a internet.

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