terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O apóstolo que odiava a ciência


Seu nome é Jeroboão Fernandes. Fundador e apóstolo da denominação conhecida como IGREJA EVANGÉLICA DO PODER PODEROSO. Resolveu pregar sobre o apocalipse. Na sua visão, um dos sinais dos fins dos tempos é a evolução sem precedentes da ciência. Bem, na verdade, é um tema que não dá muito ibope, mas tudo bem, pois as finanças da igreja vão de vento em popa, afinal, o “cajado do rei Davi” estava vendendo horrores.Acordou cedo como de costume pelo despertador do iPhone último modelo que possuia. Aproveitou e checou o e-mail, o Facebook e o Twitter. Nada de novo, a não ser uma reportagem na Folha dizendo que o MP Federal continuava investigando suas remessas ilegais de dinheiro ao exterior. Ok, estava tudo sob controle. Conhecia muita gente, inclusive na capital federal.
A pregação seria em BH e para isso precisava ir de avião. Chamou o motorista, mandou trazer o Audi A6 e tomaram o rumo do aeroporto. O GPS do automóvel indicou um caminho melhor e ele economizou minutos importantes.  Iria pregar contra ciência, mas não tinha muitos argumentos. Sacou seu tablet e pesquisou no Google e Wikipedia algo para poder falar.
Durante o caminho, recebeu um telefonema. Era seu pai. Trazia boas notícias a respeito da cirurgia de mamãe no hospital Sírio-Libanês. Ela se recuperava bem e poderia sair da UTI a qualquer momento, trinta e cinco dias depois da internação. O valor da conta não assustava o apóstolo. Os resultados obtidos com urgência via Fleury eram extremamente animadores e só isso importava.
Voou em avião particular – que ostentava um belo adesivo plástico “Propriedade de Jesus” - e não demorou nem uma hora para pousar na capital mineira. Conhecia o responsável pela operação em Confins e obtinha favores especiais. Só não poderia esquecer dos valores mensais já negociados. Vestido com seu Armani e trajando seus óculos Gucci, olhou a hora em um autêntico Tag Heuer e ficou aliviado: chegaria no horário correto. Não preparou a mensagem, mas não teria dificuldades em improvisar algo, como sempre fazia.
Chegando ao auditório, arranjaram-lhe um notebook munido de PowerPoint. Preparou sua apresentação com alguns vídeos do YouTube e iniciou a pregação. Criticou a ciência com veemência. Disse não confiar em homens nem em suas invenções inúteis. Disse que a principal arma de Satanás era enganar o homem através das inovações tecnológicas, como espécies de substitutas de Deus. Ouviu inúmeros “Amém!” e “Glória a Deus”. Ficou satisfeito. Terminou aplaudido e a arrecadação do evento foi extraordinária, mesmo sem ter sido enfocada naquele momento. Pensou “eu sou o cara, valeu Senhor!”.
Terminou o culto e saiu sem falar com ninguém, já que tinha reservado uma mesa no melhor restaurante da cidade. Iria almoçar com um deputado que estava ajudando na liberação de uma pendência na justiça, que algum juizinho idealista e recém-formado aparecido ousava atrapalhar. A ordem era fazer o que deveria ser feito. Pegou o avião de volta, plugou seu iPod, ouviu o último show ao vivo do Ozzy Ousbourne e dormiu. Era o “sono do justo” – pensou consigo.

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