segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Pesquisador vê má fé em estudos que ligam religião e saúde

Raphael Veleda, na Veja On-line
 
Pesquisas que relacionam fé e saúde aparecem com frequência nas revistas científicas. Segundo certos estudos, fiéis recuperam-se melhor de transplantes do fígado, superam com mais facilidade a depressão e aceitam melhor as sequelas de um acidente.
A mais recente pesquisa, publicada na semana passada, afirma que pessoas que frequentam igrejas correm risco menor de ter hipertensão. Mas para Richard Sloan, professor de medicina comportamental na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, pesquisas deste gênero não têm valor científico. Pior: são uma afronta à ética médica. “A maioria destes pesquisadores está interessada em promover alguma religião”, diz ele.
Autor de Blind Faith: The Unholy Alliance of Religion and Medicine (Fé Cega: a aliança profana entre religião e medicina, em tradução livre), Sloan é o maior crítico das pesquisas que apontam vantagens da fé para a saúde das pessoas. “Não há nenhuma evidência disso”, diz.
O pesquisador não questiona o conforto que a religião pode oferecer ao paciente. Seu alvo são os pesquisadores por trás de certos estudos. “A grande maioria dos estudos tem graves problemas metodológicos”, diz. “Ficar doente já é ruim o suficiente. E fica pior se a doença vem acompanhada pelo peso na consciência por não ter sido crente o suficiente.”

Que relação existe entre religião e saúde? Não há nenhuma evidência sólida de que haja relação entre devoção religiosa e boa saúde.

Um novo estudo aponta que pessoas religiosas correm menos riscos de ter hipertensão. É mais um trabalho que sofre dos mesmos problemas de todos os estudos de observação, que são superficiais.

Quais são os problemas das pesquisas que ligam religião e saúde? A grande maioria dos estudos tem graves problemas metodológicos. Alguns usam amostras muito pequenas e escondem ou ignoram dados, escolhendo os que dão força às conclusões. Existe um problema na metodologia da literatura médica que é o das múltiplas comparações. Escolhe-se uma ou mais hipóteses e são feitos inúmeros testes. Eventualmente, se acha um resultado que atinge significância estatística, mas isso é metodologicamente inadequado. A religião, talvez, ajude de outras formas. Pessoas religiosas podem fumar menos, beber moderadamente, se exercitar mais… Ou talvez não. Mas como afirmar com certeza que a religião é a responsável por isso? Não é assim que se faz ciência.

O que motiva tantas pesquisas deste tipo? Pessoas têm diferentes motivações para fazer esse tipo de pesquisa. Mas a maioria destes pesquisadores está interessada em promover alguma religião, alguma atividade religiosa. E usar a medicina para promover religião é uma violação dos valores éticos da medicina. E uma violação da liberdade religiosa.

E por que esses estudos geram tanta repercussão? Eles sempre atraem a atenção da imprensa. A combinação de medicina é religião é simplesmente muito atrativa para que seja ignorada. Então eles escrevem sobre isso o tempo todo, mas o que escrevem é ruim.

As revistas especializadas deveriam rejeitar estes trabalhos? Minha visão é a de que não vale a pena. Essas pesquisas não podem ser provadas. São todas feitas com base em observação. Se fosse possível encontrar essa ligação entre religião e boa saúde, e de novo isso é hipotético, o certo a fazer seria procurar os mecanismos que ligam essas questões. A causa é a redução no isolamento social?  Religiosos são mais sociais porque participam de reuniões religiosas? Então teríamos um caminho por onde seguir, já que isolamento social de fato é ruim para a saúde. Se fosse possível chegar a isso, a próxima questão seria: o que fazer com essa informação? E o que não fazer com ela? Recomendar que as pessoas se tornem mais religiosas? Incentivar políticas que incentivem as pessoas a desenvolver mais interações sociais de qualquer natureza?

A religião não pode ajudar a dar essa esperança aos pacientes? Talvez possa fazer com que o paciente se sinta melhor e isso é uma coisa boa. Há evidências de que otimismo, que não é o mesmo que esperança, está associado com saúde melhor. Há estudos confiáveis mostrando isso. Mas não sabemos se podemos aumentar o senso de otimismo das pessoas. Ser otimista pode ser uma característica pessoal. Você não pode receitar isso. Alguns têm, outros não.

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