quarta-feira, 7 de março de 2012

Religião e comida entram na campanha presidencial francesa


Com o presidente Nicolas Sarkozy de olho no voto da extrema-direita, um tema pouco comum acabou entrando no debate pela disputa eleitoral. O primeiro-ministro François Fillon esquentou ainda mais as discussões nesta segunda-feira ao propor que muçulmanos e judeus residentes no país abandonem o tradicional ritual de abate de animais, chamado halal e kosher, respectivamente. A sugestão foi feita depois de Sarkozy pedir, no fim de semana, que as carnes cortadas seguindo o ritual sejam claramente etiquetadas e após seus aliados avisarem que os imigrantes poderiam impor a carne halal a crianças francesas.
Fillon e outros conservadores associaram sua dura postura quanto à carne preparada de acordo com preceitos religiosos a assuntos como imigração e identidade francesa — um tema que a Frente Nacional, de extrema-direita, usa para canalizar um sentimento contra a maior comunidade muçulmana da Europa.
"Os religiosos deveriam pensar se devem manter tradições que não são tão aplicáveis à ciência, à tecnologia e aos problemas de saúde atuais", disse o premier na Europe Radio 1 em um debate sobre as eleições. "As tradições ancestrais deste ritual de sacrifício eram justificáveis no passado por questões de higiene, mas agora estão ultrapassadas. Nós vivemos em uma sociedade moderna".
Nos abates halal (muçulmano) e kosher (judeu), o animal deve estar consciente antes de seu pescoço ser cortado e de o sangue ser drenado. Já nos abates não religiosos, o animal é deixado aturdido antes.
Aplicar os dois métodos no mesmo abatedouro aumenta muito os custos, segundo os produtores. Por isso, alguns usam somente o método halal, porque a carne pode depois ser vendida tanto para açougueiros muçulmanos quanto para redes de supermercado para o consumidor comum.
Para o chefe do Conselho Muçulmano da França, Mohammad Moussaoui, a discussão pode ter reflexos mais profundos:
"Isto vai estigmatizar muçulmanos e judeus como pessoas que não respeitam os direitos dos animais e vai elevar tensões sociais", afirmou.
Natalie Kosciuskp-Morizet, porta-voz da campanha de Sarkozy, não apoiou o comentário do premier. A ex-ministra da Justiça, Rachida Dati, disse em entrevista ao jornal “Le Figaro” que esse tipo de opinião mistura muçulmanos franceses com estrangeiros.
"Muçulmanos franceses são cidadãos como quaisquer outros", lembrou.

Para socialistas, Sarkozy está ajudando a estigmatizar minorias religiosas
O debate sobre o assunto começou no mês passado, quando Martine Le Pen, líder da Frente Nacional, afirmou que os matadouros nos arredores de Paris abatiam animais somente à maneira muçulmana. Descobriu-se que a maior parte deles abastecia açougues muçulmanos e boa parte das carnes vendidas em supermercados comuns era tratada dessa maneira.
A questão acabou entrando na campanha de Sarkozy, que usou argumentos cada vez mais duros a respeito de secularismo e civilização francesa — palavras que podem afetar os cinco milhões de muçulmanos que vivem no país.
Na semana passada, o ministro do Interior, Claude Gueant, avisou que dar aos imigrantes o direito de voto nas eleições municipais, como os socialistas desejam, poderia abrir caminho para que os muçulmanos formassem maiorias nos conselhos locais e impusessem a carne halal nas cantinas das escolas.
Para François Hollande, candidato à Presidência pelo Partido Socialista, Sarkozy está estigmatizando minorias religiosas e fazendo eco a propostas da Frente Nacional, disse seu porta-voz.

Notícias Cristãs com informações de O Globo

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