domingo, 26 de agosto de 2012

"O culto dos príncipes"



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ASTRO
Pastor Claudio Mauri, o Brinco, líder da Igreja: para ele, não pode nem beijo na boca
Wilson Aquino, na IstoÉ
De 15 em 15 dias, Leandro Soares, 22 anos, percorre os 25 quilômetros que separam os bairros de Tomás Coelho, na zona norte do Rio de Janeiro, onde mora, até Copacabana, zona sul, para ouvir orientações sobre sexo, relacionamento amoroso e religião. Soares ainda é virgem e pretende se manter casto até o dia do casamento. “Estou esperando a vontade de Deus”, diz. Para não fraquejar, o jovem evangélico segue fielmente as orientações de um ex-roqueiro, que está à frente da Igreja Celular Internacional (ICI). “Se a mulher quiser dar, foge porque não é princesa”, prega Claudio Mauri, o Brinco, 41 anos. Casado há nove anos com Nana Shara, uma das filhas do casal Pepeu Gomes e Baby do Brasil (ex-Consuelo), e convertido ao protestantismo desde então, Brinco é o responsável pelo culto dos príncipes, cerimônia em que o hábito de fazer sexo antes do casamento é esconjurado.
“Estamos tentando resgatar os valores que foram perdidos. Vamos andar na contramão do que o mundo dita”, conclama Brinco, que já teve seus dias de mulherengo. “A pastora Sara fala, com razão, que sou um ex-cachorrão”, admite o roqueiro convertido, mencionando a cunhada Sara Sheeva, que ministra celebração semelhante, mas direcionada exclusivamente ao sexo feminino: o culto das princesas. No dos príncipes, a presença de mulheres é proibida (“pode dispersar a atenção dos varões”, afirma Brinco). E no das princesas, menino não entra.
No Rio, o culto dos príncipes acontece no salão do Clube Olympico, alugado pela ICI. Cerca de 200 cadeiras de plástico brancas são distribuídas em frente ao púlpito – um palco coberto por carpete vermelho, onde um músico toca órgão ininterruptamente. De camisa roxa, Brinco caminha de um lado para outro, falando sem parar. Normalmente, os cultos lotam. Porém, na quinta-feira 16, pouco mais de 40 homens compareceram à reunião. O pastor exibia a “Bíblia” para afirmar que sexo fora do casamento é pecado de fornicação, mas pouco consultava o livro sagrado. “Não estou dizendo que sexo é pecado. Afinal, quem inventou sexo foi Deus”, afirmava ele, ressalvando que o jovem deve se guardar até o casamento para ser considerado príncipe, que no caso é o filho do Rei (Deus). “Quem ama espera, respeita e paga o preço. Uma das formas de saber se o homem quer ficar com a mesma mulher até o final é ele pagar o preço da santidade.”
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Aos 22 anos, Leandro Soares pretende se manter virgem até o casamento 
Tanta rigidez moral é regada com uma oratória descontraída. Brinco chama os fiéis de “véio” e “mermão”. Divide as mulheres entre princesas e cachorras. E quando adverte sobre os perigos do beijo de língua, narra uma experiência pessoal, na qual não poupa nem os sogros. “A família da minha esposa tem uma boca enorme. Beiçola, véio!”, diz, arrancando gargalhadas da plateia formada por homens entre 18 anos e 50 anos, que apesar de carregarem a “Bíblia” não fazem menção de abri-la. E prossegue: “No começo do relacionamento com a Nana, beijava muito. Só que beijava aquela mulher na boca e ficava querendo resolver minha situação, querendo liberar aquilo. Estava prestes a explodir, velho”, confessa, provocando mais risos. “Não podia fazer sexo antes de casar, mas pensava em fazer sexo com a Nana 24 horas por dia”, continua ele, revelando que ficou um ano e quatro meses sem beijar na boca para resistir à tentação. “No nosso casamento, quando o pastor falou ‘agora pode beijar a noiva’, eu parecia um roto-rooter. Agora eu tenho passaporte para o sexo lícito (fala rindo e mostrando a aliança).”
“É castidade antes do casamento e depois vai à forra”, diz o professor de ciência da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Jorge Cláudio Ribeiro, salientando que os protestantes, pelo menos, falam com conhecimento de causa. “Pastores e pastoras podem casar e sabem o que é relação sexual. O que não é o caso da Igreja Católica, que defende o sexo somente para procriação”, afirma. “Numa sociedade tão erotizada, de repente falar em castidade acaba chamando a atenção”, observa a psicóloga e terapeuta sexual Margareth dos Reis, ressaltando que o importante é não criar uma normatização para a vida sexual. “Se esse modelo é coerente com aquilo que o casal acredita, é provável que faça bem”, explica.
O estudante Marcelo Victor Franco Carrera, 18 anos, namora há um ano e sete meses uma jovem que frequenta o culto das princesas. “O Brinco está certo, a castidade fortalece a relação”, diz Carrera, que terminaria caso cedesse e fizesse sexo com a namorada. Brinco reserva o final do encontro para esclarecer as dúvidas dos fiéis, independentemente de serem príncipes ou não. Um deles, aflito, quer saber se existe um tempo máximo para esperar. “Ah, no máximo dois anos, né? Mais do que isso ninguém aguenta.”
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