domingo, 26 de maio de 2013

Karen Armstrong: “Não espere muito do papa Francisco”

A mais importante historiadora das religiões diz que o novo pontífice não será capaz de reformar a Igreja Católica
TRANSCENDENTE Karen Armstrong, em São Paulo. Para ela, Deus responde à necessidade humana de alcançar o inexplicável (Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)
TRANSCENDENTE
Karen Armstrong, em São Paulo. Para ela, Deus responde à
necessidade humana de alcançar o inexplicável
(Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)
Luís Antônio Giron, na Época
A britânica Karen Armstrong, de 68 anos, tornou-se freira em 1962, num gesto de revolta contra o materialismo de sua família. Seus ideais religiosos se desfizeram nos sete anos em que esteve no convento. Quando desfez os votos, depois de se formar em letras na Universidade Oxford, já não acreditava em Deus. Passou a estudar as religiões para tentar recuperar a fé. Tornou-se a mais eminente historiadora das religiões da atualidade. Escreveu duas dezenas de livros sobre o tema. Foi pela ciência que ela diz ter reencontrado Deus. Há duas semanas, ela participou da série de debates Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre e São Paulo. Falou com ÉPOCA sobre intolerância religiosa, fundamentalismo e ateísmo. Para ela, Deus não existe se não é praticado.
ÉPOCA – O papa Francisco promoverá mudanças importantes na Igreja Católica?
Karen Armstrong –
 A chegada de um papa latino-americano está dando um ar novo ao Vaticano, um local que precisa se livrar da poeira. O cardeal Jorge Mario Bergoglio conviveu com a pobreza na Argentina. A escolha do nome Francisco comprova seu compromisso com um voto de pobreza. Gostei de vê-lo se hospedar num hotel modesto de Roma. Foi um gesto natural e bonito. Mas ele continua a ser conservador, escolhido pelo mais retrógrado dos papas, João Paulo II. Não espere muito do papa Francisco. Não só porque é difícil romper com a rigidez e a decadência do Vaticano, mas também porque seu perfil é austero. Ele não realizará as reformas radicais de que a Igreja Católica precisa.
ÉPOCA – Uma reforma poderia abrir a Igreja à maior participação das mulheres. Se a senhora fosse eleita papisa num conclave, quais seriam suas primeiras medidas?
Karen –
 Seria impossível. Mas começaria fazendo aquilo que Bergoglio deveria ter feito no instante em que apareceu à multidão do balcão da igreja de São Pedro: pedir desculpas pelos pecados que a Igreja cometeu nos últimos anos. Pediria perdão às crianças assediadas sexualmente por sacerdotes. Pediria perdão às vítimas, porque o papa João Paulo II ocultou esses problemas, incentivando a pedofilia no seio da Igreja. Eu me desculparia com as freiras, por elas sempre ocuparem um lugar secundário tanto nas missas como na hierarquia da Cúria romana. Decretaria, além da participação das mulheres religiosas em todos os níveis da Igreja, o fim do celibato e o direito à opção sexual dos religiosos. Isso traria uma renovação espiritual ao catolicismo. O celibato clerical surgiu arbitrariamente, no século XI, por decreto do papa Gregório VII. Esse decreto está mais do que na hora de cair. É impossível manter a Igreja com proibições que vão contra a natureza humana. O resultado são escândalos sexuais em todos os lugares envolvendo padres.
ÉPOCA – O aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo podem ser aceitos por alguma igreja cristã?
Karen –
 A permissão do aborto e do casamento gay será muito difícil, senão impossível, pois são temas tabus, que chocam milhões de pessoas. Para ser sincera, considero o aborto e o homossexualismo reflexo da civilização egoísta, materialista e consumista em que vivemos. São temas pouco relevantes numa revolução religiosa. Há coisas mais urgentes a fazer, como as que citei anteriormente.
ÉPOCA – Seu livro 12 passos para uma vida de compaixão afirma que a solução para os conflitos mundiais está em aplicar a “regra de ouro”, de Confúcio: “Não trate os outros como você não gostaria de ser tratado”. É suficiente?
Karen –
 Sim, porque a regra de ouro é prática. Ela implica uma ação. Ela sugere a prática de um valor que está em quase todas as religiões: a compaixão – palavra que significa “colocar-se no lugar de outra pessoa e sentir o que ela sente”. Daí nasce a atitude altruísta, que pode mudar a história. As religiões são disciplinas que levam seu praticante a agir.
“Alcançar Deus requer disciplina
e desprendimento. Não combina com a era tecnológica”
ÉPOCA – Um dos passos que a senhora arrola para viver em compaixão é bem difícil de praticar: “Ame seus inimigos”. Como é possível?
Karen –
 Quando Cristo prega que precisamos amar o inimigo, ele não sugere que você se entregue a ele. Na realidade, ele aconselha evitar o ódio e a vingança. Nelson Mandela (ex-presidente da África do Sul) e o Dalai-Lama (líder espiritual tibetano) são exemplos atuais de homens que não praticaram o revanchismo nem o ódio em relação a seus inimigos. Mandela buscou a reconciliação, mesmo depois de ter permanecido na prisão por 27 anos. O Dalai-Lama não condenou os algozes do budismo, os chineses. Os dois não se vingaram. Preferiram a vida da compaixão.
ÉPOCA – No ensaio Em defesa de Deus (2009), a senhora associa a intolerância, o fundamentalismo e o ateísmo, como movimentos que reduzem o sentimento religioso. Como explica esse entrelaçamento?
Karen –
 Um fenômeno leva ao outro. O ateísmo contemporâneo de Richard Dawkins (zoólogo inglês) e Sam Harris (neurocientista americano) é resultado do fundamentalismo religioso. Tanto ateístas como fundamentalistas são intolerantes, pois condicionaram a existência de Deus a provas factuais e materiais. Para eles, Deus deixou de envolver a transcendência.
ÉPOCA – Num mundo regido pela ciência, a visão reducionista de Deus pode ser contagiante. Seus estudos nas mais variadas religiões constituíram uma maneira de encontrar Deus. Onde podemos encontrar Deus nos dias de hoje, afinal?
Karen –
 Há um Deus comum às três grandes religiões monoteístas, que surgiram na era que chamo “axial”. Foi então que os grandes filósofos, também teólogos, chegaram à ideia de Deus. Deus está no ar, nos pássaros, nas plantas. Deus está em você neste instante. Ele não existe dessa forma, não é o sujeito barbudo das representações pictóricas. Deus é o símbolo da transcendência, uma necessidade humana de alcançar o inexplicável. Nesse aspecto, religião e arte são atividades parecidas. Ambas tentam explicar de forma não racional o que não pode ser explicado, como a mortalidade, a injustiça e a dureza da vida. Parece algo simples, mas alcançar Deus requer disciplina e desprendimento. Não combina com a era tecnológica. Mas Deus pode retornar, pois uma revolução espiritual terá de acontecer. As religiões podem ajudar nessa mudança.
ÉPOCA – Os atentados a bomba na maratona de Boston, em 15 de abril, trouxeram de volta a questão do fundamentalismo. Os irmãos Tamerlan e Djokhar Tsernaev cometeram os atentados por excesso de fé?
Karen – 
Eles não sabiam nada de islamismo. Não cumpriram nenhum decreto islâmico, não fazem parte de nenhum culto organizado. Fundamentalismo foi um desculpa esfarrapada. Os dois não professavam a fé islâmica, e sim participavam de grupos de discussão e redes sociais por motivação totalmente política. Tamerlan tinha o visto de trabalho, Djokhar é cidadão americano, ambos estavam entrosados na cultura americana, com seus valores consumistas e tudo o mais.
ÉPOCA – Muitos analistas associaram o atentado à vingança islâmica.
Karen – 
É uma tendência ocidental associar o terrorismo político ao fundamentalismo religioso. Não há uma frase no Corão que pregue a violência e a destruição de outro ser humano. Osama Bin Laden morreu com fama de profeta maometano, mas agiu como um militante político contra a política internacional dos Estados Unidos e de Israel. Os manifestos de Osama tinham conteúdo materialista e militante. Ele menciona os “cruzados”. Esse termo não tem, em árabe, uma conotação religiosa. É o modo como os árabes se referem às tropas ocidentais. Quando dizia “sionistas”, referia-se ao Exército israelense. Osama lutava contra a interferência do Ocidente na Palestina, na Arábia Saudita e no Iraque. Os conflitos no Oriente Médio são seculares. Não existe uma luta pela supremacia de uma religião sobre a outra. Trata-se de uma guerra tradicional, por territórios e poder.
ÉPOCA – Diante de sua atual visão não religiosa em relação ao conflito entre Oriente e Ocidente, como a senhora explica sua afirmação, publicada no livro de memórias A escada espiral (2004) de que o 11 de setembro mudou o curso de sua vida e sua visão sobre religião?
Karen – Afirmei isso porque, a partir de então, o debate sobre o choque de culturas e religiões tornou-se central. Até 2001, não se falava tanto nisso. Trabalhava mais ou menos tranquila, à sombra das bibliotecas de universidades. De repente, comecei a ser chamada a falar sobre religião. Aí me dei conta de que uma historiadora da religião, como eu, passava a ser importante para as pessoas pensarem sobre o mundo contemporâneo. Fiquei surpresa. E me tornei uma viajante mundial, não porque goste disso – odeio avião –, mas porque fui levada a me manifestar.

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