quarta-feira, 26 de junho de 2013

Uma análise bíblica desta onda de manifestações que varre o Brasil


Por Hermes C. Fernandes

Cristãos conservadores identificados com a ala direita do espectro ideológico acusam os esquerdistas de atribuírem ao Estado papéis divinos. Segundo estes, não compete ao Estado prover educação, saúde, programas assistenciais, nem tampouco tentar regular a economia. Agindo assim, o Estado estaria tomando o lugar de Deus. Todavia, por trás deste discurso aparentemente piedoso se esconde motivações nem sempre louváveis. Mesmo um conservador não cristão vai concordar que não é justo usar seus impostos para socorrer os menos favorecidos. Já os esquerdistas pensam de maneira inversa. Compete ao Estado diminuir a distância entre as classes, tirando das mais abastadas através de impostos, e provendo serviços que beneficiem a todos, sobretudo, os mais necessitados.

A atual onda de manifestações que tem varrido o Brasil revela a insatisfação do povo com relação aos governos, sejam municipais, estaduais ou federal. Desde o início, tenho me posicionado a favor destes protestos, o que tem me rendido a acusação de ser esquerdista. Provavelmente, isso se deve ao silêncio da maioria da liderança evangélica. Alguns poucos se pronunciaram, e a maioria deles se revelou contrária às manifestações. Recebi diversas críticas por colocar-me ao lado dos anseios populares. Apesar de alguns direitistas tentarem extrair das manifestações algo que lhes favoreça, alegando que a população estaria descontente com o atual governo esquerdista, o fato é que, no fundo, eles são contrários às reivindicações populares, por acreditarem não ser papel do Estado satisfazê-las. Por isso, sua ênfase é sempre em torno da corrupção, como se esta fosse exclusividade da ala esquerda ou do atual governo.

Para o direitista cristão, o papel do Estado se limita ao que Paulo sucintamente apresenta em Romanos 13:

“Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal.” Romanos 13:3-4

Resumindo: Estabelecer a ordem, coibindo o avanço da maldade através do uso da lei e da força, julgando e punindo os criminosos. Isso justificaria forte investimento em segurança através do aparelhamento das forças armadas e das polícias. Um ambiente seguro garantiria um terreno fértil para o desenvolvimento de outras atividades e, consequentemente, a prosperidade da sociedade.

Se observarmos mais atentamente o texto, perceberemos que o papel do Estado vai além de garantir segurança aos seus cidadãos. Ele também deve ser ministro de Deus para a promoção do bem. Portanto, não basta coibir o mal, tem que promover o bem. E o que abrangeria este “bem”? Poderíamos incluir a saúde, a educação? E mais: o Estado deve estimular a livre iniciativa que vise o bem comum. Receber louvor do Estado nada mais é do que receber estímulo, incentivo, inclusive de ordem econômica. Estimula-se o desenvolvimento de uma sociedade provendo-lhe educação, qualificando profissionalmente os seus cidadãos, investindo em pesquisas.  Estimula-se o progresso econômico através da desburocratização, e de incentivos fiscais, desonerando serviços essenciais à população, viabilizando o crédito, incentivando a produção.

Não se trata de atribuir ao Estado papéis divinos e sim de conferir-lhe o papel que as Escrituras lhe atribuem: ser ministro de Deus. Lutero costumava dizer que Deus age no mundo através de dois braços, o Estado e a Igreja, a Lei e a Graça.

Como promotor do bem comum, compete ao Estado contribuir na distribuição de renda. Jamais foi plano de Deus que as riquezas deste mundo fossem concentradas em poucas mãos. A justiça do reino de Deus se caracteriza, sobretudo, pela distribuição equitativa dos recursos. Por isso, Paulo declara acerca de Deus:Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre” (2 Coríntios 9:9). Tanto a Igreja, quanto o Estado têm a obrigação de ser agente de Deus para espalhar, e não concentrar. Não se trata de ser uma espécie de Robin Hood, que tira dos ricos para dar aos pobres. A propriedade privada deve ser garantida. O primeiro a comer do fruto do seu trabalho é aquele que o produziu (confira 2 Tim.2:6). Todavia, ser o primeiro não é ser o único. Paulo nos adverte a trabalhar, “fazendo com as mãos o que é bom”, para que tenhamos “o que repartir com o que tiver necessidade” (Efésios 4:28).

A diferença entre o Estado e a igreja é que o primeiro age por força da Lei, enquanto a igreja promove o bem através da conscientização. O Estado não pode me obrigar a partilhar dos meus bens com quem quer que seja. O que ele pode e deve é usar os meus impostos para beneficiar a todos, sobretudo aos mais necessitados. Porém, cabe à igreja conscientizar-nos da importância da partilha. Não uma partilha imposta por lei, mas voluntária, motivada pelo amor. O Estado coage pela força. A igreja constrange pelo amor. O Estado impõe. A igreja propõe. O Estado busca prevalecer-se. A igreja, compadecer-se.

A igreja primitiva serve-nos de modelo de uma sociedade justa. Somos informados que “era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns”(Atos 4:32). Consequentemente, “não havia, pois, entre eles necessitado algum”(v.34). Tudo era repartido entre eles. Não de maneira compulsória, mas por amor.

O Estado incentiva, a igreja motiva. O Estado distribuiu através de serviços pagos pelos impostos dos seus cidadãos, a igreja distribuiu através da partilha voluntária. O bem promovido pela igreja não se limita aos seus membros, ainda que estes lhe sejam prioridade. Paulo orienta a que enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6:10). Tenho a impressão de que João tenha invertido esta prioridade. Repare em sua instrução: “Amado, procedes fielmente em tudo o que fazes para com os irmãos, especialmente para com os estranhos, os quais diante da igreja testificaram do teu amor” (3 Jo 1:5-6). Sem importar se priorizaremos uns ou outros, o importante é que façamos o bem a todos. E fazer o bem implica repartir.

Alguns irmãos mais conservadores condenaram o meu incentivo às manifestações populares, alegando que assim eu estaria estimulando as pessoas a se insurgirem contra autoridades estabelecidas por Deus. Se os conservadores acusam os progressistas de atribuir ao Estado papéis divinos, eles igualmente o fazem quando lhe atribuem inquestionabilidade. Somente Deus jamais deve ser questionado. Devo submeter-me às autoridades estabelecidas por Deus desde que estas cumpram o papel que lhe fora ordenado. Se não promovem o bem comum, logo, perdem sua legitimidade. Nossa submissão às autoridades deve ser consciente. Submissão cega nada mais é do que subserviência.

Os conservadores também atribuem à autoridade estatal um tipo de atemporalidade, como se seus mandatos fossem eternos. Lembremo-nos de que é Deus quem muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis (Dn 2:21). Nenhuma estrutura de poder é eterna. Todas vêm com prazo de validade.

Os monarcas europeus se aproveitavam de passagens como Romanos 13 para se perpetuarem no poder, colocando-se acima de qualquer questionamento. Questionar a legitimidade do trono era o mesmo que questionar o próprio Deus. Até que veio a república. Reis foram depostos. Alguns levados à guilhotina. A democracia substituiu ao absolutismo que prevaleceu durante a chamada Idade das trevas. 

Definitivamente, não há regimes perfeitos. Todos estão fadados a desaparecer, sendo substituídos por outros.

Hoje, vivemos em plena democracia, que repousa sobre a máxima: “todo poder emana do povo, pelo povo e para o povo.” É um sistema perfeito? Absolutamente, não. Churchill dizia que “a democracia é o pior dos regimes políticos... bem, excetuando-se todos os outros”.

Nenhuma ideologia dá conta de atender a todas as demandas da sociedade. Todas acertam em algum ponto, mas também erram em muitos outros. Se uma prioriza a justiça, a outra prioriza a liberdade.

Se não tivermos o direito de questionar, insurgir, manifestar, jamais seremos aperfeiçoados como sociedade. Estaremos eternamente deitados em berço esplêndido, contentando-nos com os velhos paradigmas do binômio direita/esquerda.

Biblicamente, todos os regimes e ideologias estão preparando caminho para a grande síntese, o reino de Deus. É por ele que a humanidade tanto aspira. Nele a justiça e a liberdade, tão caros à civilização, finalmente se entrelaçarão. E o cupido que promoverá este encontro épico será o amor.

O reino de Deus é aquela pedra sonhada por Nabucodonosor, que, arremessada desde o céu, atinge em cheio os fundamentos sobre os quais foram erigidos todos os sistemas de poder deste mundo, esmiuçando-os completamente. Depois disso, a pedra vai se avolumando, tornando-se num monte destinado a encher toda a Terra. Nada mais subversivo que isso, não? A pedra chega discreta, atinge os pés da estátua, em vez de a cabeça, e, aos poucos, cresce e preenche todo o cenário (Daniel 2:31-44). Apesar de o reino de Deus já ter vindo e estar entre nós, antes que ocupe todo o espaço a que está destinado, algo precisa ser removido.

Paulo afirma que o fim virá “quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder” (1 Co.15:24). O “fim” aqui não deve ser entendido como cessação da existência. Sinto em informar-lhe que jamais foi plano de Deus promover a aniquilação deste mundo. Pelo contrário, Ele pretende restaurá-lo (At.3:21). O fim de que Paulo trata é o alcance do objetivo da história. Em outras palavras, a história terá alcançado o seu propósito quando Cristo houver destruído toda estrutura de poder.

As mesmas autoridades sob as quais devemos estar no presente momento, são alvo deste processo de demolição promovido por Cristo. Paulo declara que “os poderosos desta era” estão sendo, agora mesmo, “reduzidos a nada” (1 Co 2:6). Portanto, nossa submissão a eles é temporária. O único a que devemos submissão eterna é o Cristo de Deus, Rei dos reis, Senhor dos senhores.

O escritor de Hebreus afirma que há estruturas que são abaláveis, e que devem ser removidas para dar lugar às “coisas inabaláveis”, que segundo ele, nada mais é do que o reino de Deus (Hb.12:27-28).

Cristo é Aquele que agora mesmo está reinando soberanamente, de cuja boca sai “uma espada afiada, para ferir com ela as nações; ele as regerá com cetro de ferro” (Ap.19:11-16). Ele arremete Seu cetro de justiça contra toda estrutura injusta, quebrando-a como se fosse vasos de barro (Sl.2:8-9).

Constituições caducarão. Parlamentos serão dissolvidos. Presidentes, depostos. Fronteiras cairão. Configurações geopolíticas serão rearranjadas. Mas o Seu reino sobreviverá a tudo isso e permanecerá para sempre.

Foi o Seu cetro de justiça que derrubou o muro de Berlim (não importa quais foram os protagonistas e as razões históricos). Este mesmo cetro é arremessado contra Wall Street e sua ganância. E é este mesmo cetro que, agora, está apontado sobre as instituições brasileiras. Elas estão sub judice popular e celestial. A fúria popular está sendo o canal pelo qual a fúria divina está se revelando. Não através de atos de vandalismo, mas de manifestações pacíficas e do clamor popular por justiça.

Não são os edifícios públicos que devem ser depredados, mas os edifícios de ideias anacrônicas e egoístas que precisam ser desmantelados. Segundo Paulo, nosso arsenal não é carnal, porque as fortalezas contra as quais avançamos não são pedras e tijolos. Pelo contrário, as armas da nossa milícia são “poderosas em Deus, para demolição de fortalezas; derribando raciocínios e toda altivez que se ergue contra o conhecimento de Deus” (2 Co.10:3-5).

Toda estrutura de poder é legitimada por uma ideologia, seja de direita ou de esquerda. Se esta for desmantelada, o edifício erguido sobre ela sucumbirá. Não ficará pedra sobre pedra.

O reino de Deus não será implantado pela força da espada, ou por tiros de canhão, ou por qualquer outro meio de coação. O reino de Deus não vem pelo uso da força ou pela violência, mas pelo agir do Espírito. E a espada o Espírito é a Palavra. Aquela espada que sai da boca de Cristo na visão narrada por João em Apocalipse é a Palavra de Deus. Será com ela que demoliremos toda e qualquer fortaleza ideológica. Não confunda a Palavra com discurso moralista ou ideológico. A Palavra se revela no anúncio da boa nova do reino e na denúncia das injustiças cometidas por poderes constituídos.

A comissão do profeta Jeremias se confunde com a vocação de cada ser humano que se põe à serviço do reino de Deus e da sua justiça. Por ser tenro na idade, Jeremias tentou safar-se. Porém, Deus o exortou a não usar suas limitações como desculpa.

Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar, falarás. Não temas diante deles; porque estou contigo para te livrar, diz o SENHOR. E estendeu o SENHOR a sua mão, e tocou-me na boca; e disse-me o SENHOR: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca; olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares.” Jeremias 1:4-10

Algo tem que ser demolido, a fim de que outro seja construído em seu lugar. Nosso papel como agentes do reino é abrir nossa boca, fazer coro com os que clamam por justiça, e assim, ajudar na remoção dos escombros de estruturas que já estão em franca ruína.

Por favor, não interprete meu discurso como sendo um convite a um levante contra as instituições governamentais. Não é contra elas que lutamos. Nem mesmo contra partidos ou governantes. Lutamos contra a injustiça, seja praticada por quem for. Todavia, não nutrimos esperanças de que tais estruturas sejam eternas. Mesmo as nações estão com seus dias contados. Lemos em Atos 17:26 que Deus fixou os seus tempos determinados e os limites da sua habitação.

Sugiro que o nacionalismo exacerbado encontrado em nossas manifestações seja substituído por amor à humanidade como um todo.

Caminhamos para um tempo em que o conceito atual de nação cairá em desuso. Seremos uma só humanidade, a civilização do reino de Deus, em que Ele será tudo em todos. De acordo com a descrição bíblica, esta sociedade construída ao redor do trono de Deus não terá necessidade nem do sol, nem da lua, que são símbolos de governo e religião (Is.60:19; Ap.21:23). A sociedade definitiva será anárquica, isto é, sem governo, submetida exclusivamente ao senhorio de Cristo. A sociedade definitiva será secular, isto é, sem religião. Daí João não ter visto templo algum na Nova Jerusalém descrita em Apocalipse. Tanto o Estado, quanto a Igreja são apenas andaimes usados por Deus na construção da civilização do reino. Quando a nova humanidade houver chegado à sua plenitude, os andaimes já não serão necessários. A igreja que durará para sempre não é institucional, nem religiosa. O conjunto daqueles que receberam uma nova vida em Cristo é o embrião da nova humanidade, e durará eternamente. Mas a igreja institucional não passa de uma placenta, que depois de cumprir o seu papel de proteger o feto até o seu nascimento, será descartada. Uma sociedade a-religiosa não significa uma sociedade ateísta, mas que cultiva uma espiritualidade genuína que não carece da mediação de sacerdotes, nem de ritos ou regras. Uma sociedade que anda à luz da consciência alcançada em Cristo.

É para lá caminhamos. A jornada promete ser longa, até que todos alcancemos a“perfeita humanidade”“à medida da estatura completa de Cristo” (Efésios 4:13) e, assim, “Deus seja tudo em todos” (1 Co.15:28). Por enquanto, resta-nos contentarmos com a aparição da Estrela da Manhã, que nos anuncia que o novo dia já se insinua no horizonte da história.

Até que a história alcance seu apogeu, não se pode prescindir dos andaimes. Afinal, não temos a habilidade do homem-aranha. Não escalamos paredes. Portanto, ainda carecemos dos andaimes. O que não se pode é sacralizá-los, ou impedir que sejam rearranjados de maneira a possibilitar subirmos mais alto. Que nosso amor não seja devotado a eles, mas à humanidade, alvo do amor eterno do Seu Criador.

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