A pregação seria em BH e para isso precisava ir de avião. Chamou o
motorista, mandou trazer o Audi A6 e tomaram o rumo do aeroporto. O GPS
do automóvel indicou um caminho melhor e ele economizou minutos
importantes. Iria pregar contra ciência, mas não tinha muitos
argumentos. Sacou seu tablet e pesquisou no Google e Wikipedia algo para
poder falar.
Durante o caminho, recebeu um telefonema. Era seu pai. Trazia boas
notícias a respeito da cirurgia de mamãe no hospital Sírio-Libanês. Ela
se recuperava bem e poderia sair da UTI a qualquer momento, trinta e
cinco dias depois da internação. O valor da conta não assustava o
apóstolo. Os resultados obtidos com urgência via Fleury eram
extremamente animadores e só isso importava.
Voou em avião particular – que ostentava um belo adesivo plástico
“Propriedade de Jesus” - e não demorou nem uma hora para pousar na
capital mineira. Conhecia o responsável pela operação em Confins e
obtinha favores especiais. Só não poderia esquecer dos valores mensais
já negociados. Vestido com seu Armani e trajando seus óculos Gucci,
olhou a hora em um autêntico Tag Heuer e ficou aliviado: chegaria no
horário correto. Não preparou a mensagem, mas não teria dificuldades em
improvisar algo, como sempre fazia.
Chegando ao auditório, arranjaram-lhe um notebook munido de
PowerPoint. Preparou sua apresentação com alguns vídeos do YouTube e
iniciou a pregação. Criticou a ciência com veemência. Disse não confiar
em homens nem em suas invenções inúteis. Disse que a principal arma de
Satanás era enganar o homem através das inovações tecnológicas, como
espécies de substitutas de Deus. Ouviu inúmeros “Amém!” e “Glória a
Deus”. Ficou satisfeito. Terminou aplaudido e a arrecadação do evento
foi extraordinária, mesmo sem ter sido enfocada naquele momento. Pensou
“eu sou o cara, valeu Senhor!”.
Terminou o culto e saiu sem falar com ninguém, já que tinha reservado
uma mesa no melhor restaurante da cidade. Iria almoçar com um deputado
que estava ajudando na liberação de uma pendência na justiça, que algum
juizinho idealista e recém-formado aparecido ousava atrapalhar. A ordem
era fazer o que deveria ser feito. Pegou o avião de volta, plugou seu
iPod, ouviu o último show ao vivo do Ozzy Ousbourne e dormiu. Era o
“sono do justo” – pensou consigo.
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